E o Natal que nunca mais acaba

Ainda não começou e são muitos os que já desesperam pelo seu final. A confusão, o trânsito, as luzes e todo o frenesim comercial à volta de um momento comemorativo espiritual traz uma comoção e um despertar de sentimentos controversos e contraditórios na população. Os comerciantes e as marcas procuram neste tempo multiplicar-se em métodos e planos de comercialização e promoção que façam valer a pena todo o investimento e esforço de um ano, pois é bem verdade que ainda uma grande fatia da nossa economia sobrevive ao longo de três trimestres para ver se consegue chegar e receber uma enorme bomba de oxigénio de vendas no quarto e último trimestre do ano civil.Mas porque razão temos de viver assim? É a sazonalidade dizem uns, é o sentimento menos negativo dos consumidores dizem outros. Ainda há quem diga que é devido à esperança que o ano que aí vem pode trazer. Porém, é um modelo comercial que não muda a sua forma há muitas décadas. Na Europa, para apoiar o declínio que tem havido, começaram a adotar-se estratégias de marketing americanas que visam adoptar os mesmos hábitos de consumo com ações como a Black Friday e agora, mais recentemente, a Cyber Monday. Técnicas estas que nem sempre são adoptadas da forma mais correta e clara por parte de anunciantes e superfícies comerciais.

Esta época que até há menos de uma década começava a agitar todo o mercado somente no final de novembro, agora começa muito antes, com os primeiros anúncios de produtos e brinquedos infantis a começarem a inundar o tempo publicitário televisivo já a meio de outubro e ganhando força a partir do Halloween (novamente pergunto, o que é que esta festa tem a ver com a cultura europeia e principalmente com a portuguesa? Resposta simples, nada!), estando já no início de novembro nas ruas, nas caixas de correio e nos escaparates os catálogos de brinquedos e gadgets que cada vez vêm mais rebuscados e orientados para as necessidades dos consumidores, incluindo alguns deles um espaço ao lado do produto, onde as crianças ou mesmo os graúdos podem assinalar para não se esquecer de colocar na sua lista de natal.

As páginas das áreas de consumo e os especiais que cada meio de comunicação promove estão carregados de opções fantásticas, que elevam a autoestima e o anseio de sonhar de qualquer comum mortal. Nem as redes sociais escapam, pelo contrário, as redes sociais cada vez mais nos invadem com ideias e soluções únicas de como gastar cada precioso cêntimo que possamos ter ao nosso dispor, com concursos fantásticos, com a aquisição de promoções únicas e onde a marca mostra que está ao lado do seu fã favorito. Já repararam na quantidade de posts que passa pelas vossas timelines com imagens de prendas que os vossos amigos e familiares gostavam de receber?

Esta é a realidade que temos de enfrentar a cada dia, porém como este será o meu último texto deste ano, quero ser anti-consumista e pensar que a nossa vida não se rege somente por marcas e impulsos condicionados pelas mensagens publicitárias, comerciais e de relações públicas. Quero acreditar e desejar que neste período não sejamos mais uns que querem que a época passe para poder respirar um pouco, mas que tenhamos esta época para pensar e melhorar a nossa forma de estar e relacionar com tudo o que está à nossa volta, para que possamos ser melhores pessoas. Desejo a todos boas festas e que o próximo ano seja cheio de novos desafios, aventuras e muita prosperidade.

Este artigo foi escrito e publicado para o Liga-te à Media: http://www.ligateamedia.pt/ArticleItem.aspx?tabid=2425&langid=pt&path=LigateaMedia/Artigos/Opiniao/&modid=55480&itemid=5087

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