Eu, consumidor, me confesso

Eu, consumidor, me confesso que todos os dias caio na tentação de ver a promoção do dia de cada um dos hipermercados. Não deixo de procurar todos os dias pelos blogues que me mostram os novos cupões de desconto e as oportunidades de teste de produtos. Não há passatempo em blogue, site de marca ou página de Facebook que me escape. Partilho e faço Like a todas as oportunidades de ganhar uma viagem a qualquer cidade europeia com tudo pago, ou para receber um smartphone por €10. Não perco uma oportunidade de subscrever uma petição onde os governantes sejam colocados em causa e possamos pedir a sua demissão.

Eu, consumidor, me confesso que não resisto a uma imagem que contenha um gato ou um bebé a rir, pois é difícil viver nestes dias sem ver estas imagens, e não resisto a um jogo de Candy Crush, desde que o Farm Ville começou a sofrer do mesmo mal de desertificação que o interior de Portugal.

Eu, consumidor, me confesso que não resisto aos petiscos que fazem nas gôndolas dos supermercados, onde posso consumir um pouco de alguns produtos que nunca na vida compraria, tal como não resisto a nenhum pague 2 leve 3, e a todos aqueles produtos que nos seus packs trazem mais um saco de frio para conservar as bebidas, mas que só servem para ocupar mais espaço na despensa.

Eu, consumidor, me confesso que não resisto a trocar de número de telemóvel sempre que existe um novo produto ou plano de comunicações que me permita ter mais largura de banda e mais volume de dados gratuitos.

Eu, consumidor, me confesso que não sou capaz de viver sem triple play, sem um pacote mínimo de 100 canais de televisão, mesmo que só veja 8!

Eu, consumidor, me confesso que tenho mais contas em redes sociais do que alguma vez tive em toda a minha vida nos bancos.

Eu, consumidor, me confesso que ler livros deixou de fazer sentido, a não ser que tenham infografias que expliquem o enredo numa só página.

Eu, consumidor, me confesso que consumir por impulso deixou de ter a mesma frequência como antes: o impulso passa agora sempre pelos fóruns online e por comparar e avaliar todas as características dos produtos e ver qual deles é mais hipster.

Eu, consumidor, me confesso: nunca andei tão perdido como agora. Sei tudo, mas não sinto nada!

 

( este texto foi escrito com base nas atitudes genéricas e tendências de consumo, em tempo algum retratam os hábitos de consumo do autor. )

Este artigo foi publicado em: http://buzzmedia.controlinveste.pt/artigos-de-opiniao/79/fernando-batista/eu-consumidor-me-confesso

 

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